O problema da Saúde em Portugal – um bloqueio político-ideológico 4 de Maio 2026
Pouco falta para o arranque da época balnear, do turismo,
dos negócios de praia e de verão, e claro, do caos nas urgências do SNS. Já quase
nos esquecíamos na verdade – aturdidos que estamos com guerras, economia,
futebóis - que o SNS continua em rotura, que há médicos e enfermeiros a menos,
que estão exaustos, que o orçamento é desadequado para as necessidades, que há intermináveis
listas de espera em serviços e em casos onde a espera não é possível, que as
grávidas que não podem ter as crianças no privado sofrem stress pré-traumático,
que temos de contar com 15 e mais horas para sermos atendidos numa urgência no
coração de Portugal quando há um previsível e anual surto de gripe, que há mais
de um milhão e meio de utentes que não têm médico de família, que 14% do total
de médicos no SNS são tarefeiros que não concorrem aos quadros e assumem mais
de 50% das urgências - tornando o manning uma tarefa ingrata quando não
impossível. Uma realidade bem conhecida.
Se buscarmos algumas vozes sobre
a questão no terreno, como a do PCP, veremos surgir a acusação de que o
dito caos resulta na verdade de um plano, uma estratégia governamental “para
desarticular e desagregar o SNS com um único objetivo, [que] não é o de
garantir os cuidados de saúde que os utentes têm direito, mas sim promover o
negócio da doença dos grupos privados” (Intervenção de Paula Santos na
Assembleia de República, de 7 de Janeiro 2025). Trata-se de uma fonte – o PCP -
que está publicamente presente na Federação Nacional dos Médicos (FNAM) e com
ela colabora com regularidade, assim como com o SEP, o Sindicato dos
Enfermeiros Portugueses, este também profundamente entrosado com a CGTP e a sua
agenda. Poderíamos neste ponto afirmar que um dos principais problemas da Saúde
em Portugal se prende com o excesso de sindicalismo e corporativismo, que
bloqueia reformas necessárias no SNS, que se fecha a medidas mais dinâmicas em
questões como a contratação de efetivos, gestão de escalas, progressão de
carreiras. Estaríamos no entanto a procurar a origem do problema na sua natural
reação, o que em medicina se traduz numa abordagem sintomática ou paliativa,
própria de quando não se conhece ou não se pode combater a raiz do problema.
Ora esta é de há muito conhecida:
trata-se de um problema essencialmente político-ideológico. Não de natureza médica
ou de modelo de gestão, para combater desperdícios e controlar fenómenos de corrupção.
O problema é antes de mais político, e há dezenas de anos que tem vindo a ser
resolvido com sucesso em diferentes geografias do globo, desde logo na Europa. Um
dos melhores exemplos, na verdade, de como gerir um gigantesco e pesado serviço
público nacional que serve uma população cada vez mais envelhecida ao mesmo
tempo que recebe emigrantes de todo o mundo a viver precariamente, está em
França. Não num pequeno país de difícil acesso e pouca representatividade,
antes o país onde vive a maior comunidade portuguesa na Europa. Teríamos,
portanto, a obrigação de estar atentos, mas um bloqueio ideológico por parte
dos partidos que nos têm governado nos últimos anos tem obstado a que se tenham
antecipado tendências bem conhecidas e previsíveis, e feito reformas
indispensáveis.
Qual, pois, a receita seguida por
países como França para resolver os problemas que todos os serviços de saúde tendencialmente
universais e gratuitos do Mundo tiveram ou têm? Sem apriorismos, abraçaram a
mudança, a onda civilizacional e política que vem varrendo os
Estados-Providência, que dita que hoje em Portugal (onde existem 130 hospitais
privados para 111 públicos) como em França (das 2965 unidades hospitalares existentes
apenas 1330 são públicas) existam mais unidades privadas de saúde do que com
gestão pública.
Reflectindo esta realidade e não
a combatendo, assim surgiram - numa articulação entre os Ministérios da Saúde e
da Segurança Social Franceses - os planos de seguros de saúde complementar (as mutuelle
santé) que cobrem os custos remanescentes das despesas médicas em privados não
reembolsadas pelo sistema nacional de saúde, funcionando através de deduções
mensais. Ou seja, em vez de os trabalhadores canalizarem todos os meses 100% dos
seus descontos para os sistemas nacionais de saúde e segurança social, escolhem
fazer as suas deduções parcialmente para uma mutualista, um seguro de saúde
complementar que funciona - sem limitações de idade ou necessidade de exames
médicos - de acordo com o princípio da solidariedade para com o sistema nacional
de saúde. Trata-se de um sistema que se tornou obrigatório a partir de 2016 para
os trabalhadores do sector privado, mas abrange também os do sector público, estando
garantida missão social, assegurando o Complémentaire Santé Solidaire para
quem não dispõe de recursos nem descontos.
Mantendo-se o sistema gratuito e
universal, a Segurança Social reembolsa 70% dos custos de uma consulta ou de um
acto médico efetuado numa unidade privada, cabendo ao seguro de saúde
complementar os restantes 30%, dependendo do contrato escolhido. Dez anos passaram
sobre a implementação total deste plano - o PUMA (Protection Universelle
Maladie) - estando provada a sua sustentabilidade e o valor do seu
contributo para manter as unidades públicas de saúde a funcionar dentro do seu
potencial, respeitando ao mesmo tempo a utilidade da iniciativa privada na
saúde.
Esperamos pois que a nomeação por
parte do Presidente da República do Professor Adalberto Campos Fernandes, como
líder do Pacto Estratégico para a Saúde não seja tolhida pelos habituais interesses
e preconceitos, e que se vá de encontro às lessons learned que podemos
colher em França mas também em países como Marrocos, Argélia, Canadá e mesmo o
Brasil - exemplos que têm na complementaridade entre o serviço com
financiamento público e o privado com base em seguros de saúde – o mutualismo -
a base dos seus sistemas nacionais de saúde. O futuro da Saúde em Portugal (não
apenas do SNS) pensamos, passa pela adoção deste modelo. Uma solução que acaba de
resto por dar continuidade uma antiga tradição de associações de socorros
mútuos Portuguesa (especialmente marcante no tocante à saúde no século XIX) e à
própria Lei n.º 2120, de 19 de julho de 1963, que promulgou as primeiras bases
da política de saúde e assistência em Portugal, impondo o peso do Estado apenas
naquilo que “não [pudesse] ser entregue à iniciativa privada”. A democracia traria um SNS socializante mas
rapidamente “cinco vezes mais recursos públicos e privados” (dados do Banco de
Portugal), resultando numa evolução notável na Saúde dos Portugueses. O
surgimento das PPP’s, uma progressiva complementaridade entre a acção Estado e unidades
não-lucrativas, e os recursos desenvolvidos por grupos empresariais de saúde, delineiam
um futuro que passa, estamos certos, por este caminho.
English version
The Problem of Healthcare in Portugal – A
Political-Ideological Blockade May 4, 2026
The start of the summer season, tourism, beach and summer
businesses, and of course, the chaos in the SUS (Brazilian public healthcare
system) emergency rooms, is just around the corner. We had almost forgotten, in
fact – overwhelmed as we are by wars, the economy, football – that the NHS
continues to collapse, that there are too few doctors and nurses, that they are
exhausted, that the budget is inadequate for the needs, that there are endless
waiting lists in services and in cases where waiting is not possible, that
pregnant women who cannot have their children in private clinics suffer from
pre-traumatic stress, that we have to expect 15 or more hours to be seen in an
emergency room in the heart of Portugal when there is a predictable and annual
flu outbreak, that there are more than one and a half million users who do not
have a family doctor, that 14% of the total number of doctors in the NHS are
temporary workers who do not apply for permanent positions and handle more than
50% of emergencies – making manning a thankless task if not impossible. A
well-known reality.
If we seek out some voices on the ground regarding this
issue, such as that of the PCP (Portuguese Communist Party), we will find
accusations that the so-called chaos is actually the result of a plan, a
governmental strategy "to dismantle and disaggregate the SNS (National
Health Service) with a single objective, [which] is not to guarantee the
healthcare that users are entitled to, but rather to promote the business of
illness for private groups" (Paula Santos's intervention in the Assembly of
the Republic, January 7, 2025). This is a source – the PCP – that is publicly
present in the National Federation of Doctors (FNAM) and collaborates with it
regularly, as well as with the SEP, the Portuguese Nurses' Union, which is also
deeply intertwined with the CGTP (General Confederation of Portuguese Workers)
and its agenda. At this point, we could argue that one of the main problems in
Portuguese healthcare is related to excessive unionism and corporatism, which
blocks necessary reforms in the SUS (Unified Health System), and which is
closed to more dynamic measures in areas such as staff recruitment, shift
management, and career progression. However, we would be seeking the origin of
the problem in its natural reaction, which in medicine translates into a symptomatic
or palliative approach, typical of when the root of the problem is unknown or
cannot be combated.
Now, this has long been known: it is essentially a
political-ideological problem. Not of a medical nature or a management model to
combat waste and control corruption. The problem is first and foremost
political, and for decades it has been successfully solved in different
geographies around the globe, first in Europe. One of the best examples, in
fact, of how to manage a gigantic and cumbersome national public service that
serves an increasingly aging population while also receiving immigrants from
all over the world living precariously, is in France. Not in a small country
with difficult access and little representation, but in the country where the
largest Portuguese community in Europe lives. We therefore have an obligation
to be vigilant, but an ideological blockade on the part of the parties that
have governed us in recent years has prevented us from anticipating well-known
and predictable trends, and from carrying out essential reforms.
So, what is the recipe followed by countries like France to
solve the problems that all the world's tendentially universal and free health
services have had or have? Without preconceived notions, they embraced change,
the civilizational and political wave that has been sweeping away welfare
states, which dictates that today in Portugal (where there are 130 private
hospitals for 111 public ones) as in France (of the 2965 existing hospital
units, only 1330 are public) there are more private health units than those
with public management.
Reflecting this reality and not fighting it, the
supplementary health insurance plans (mutuelle santé) emerged - in an
articulation between the French Ministries of Health and Social Security -
which cover the remaining costs of medical expenses in private clinics not
reimbursed by the national health system, operating through monthly deductions.
In other words, instead of workers channeling 100% of their monthly deductions
to the national health and social security systems, they choose to partially
contribute to a mutual insurance company, a supplementary health insurance that
operates – without age limitations or the need for medical examinations –
according to the principle of solidarity with the national health system. This
system became mandatory in 2016 for private sector workers, but also covers
those in the public sector, with a guaranteed social mission, ensuring the
Complémentaire Santé Solidaire (Solidarity Health Insurance) for those who lack
resources or deductions.
Maintaining a free and universal system, Social Security
reimburses 70% of the costs of a consultation or medical procedure performed in
a private unit, with the supplementary health plan covering the remaining 30%,
depending on the chosen contract. Ten years have passed since the full
implementation of this plan - the PUMA (Protection Universelle Maladie) -
proving its sustainability and the value of its contribution to keeping public
health units functioning within their potential, while respecting the usefulness
of private initiatives in healthcare.
We therefore hope that the appointment by the President of
the Republic of Professor Adalberto Campos Fernandes as leader of the Strategic
Pact for Health will not be hampered by the usual interests and prejudices, and
that it will follow the lessons learned that we can gather in France, but also
in countries such as Morocco, Algeria, Canada and even Brazil - examples that
have the complementarity between publicly funded and privately funded services
based on health insurance - mutualism - as the basis of their national health
systems. We believe that the future of healthcare in Portugal (not just the
NHS) depends on the adoption of this model. This solution ultimately continues
an old tradition of Portuguese mutual aid associations (especially prominent in
the health sector in the 19th century) and Law No. 2120 of July 19, 1963, which
promulgated the first foundations of health and assistance policy in Portugal,
imposing the weight of the State only on what “could not be handed over to
private initiative”. Democracy would bring a socialist National Health Service
but quickly “five times more public and private resources” (data from the Bank
of Portugal), resulting in a remarkable evolution in the health of the
Portuguese people. The emergence of PPPs (Public-Private Partnerships), a
progressive complementarity between State action and non-profit units, and the
resources developed by health business groups, outlines a future that, we are
sure, follows this path.
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