O inevitável
caminho para uma crise, de 24.2.2026
Se fizermos aquele exercício
atribuído falsamente a Churchill - acerca do perigo para a democracia que
consiste em falar mais de cinco minutos com um eleitor comum - rapidamente
perceberemos que em Portugal acreditamos, baseados na fé, que não teremos uma
crise como a que nos atingiu entre 2008 e 2016 (grosseiramente alinhando estas
datas). Nesta hora negra tivemos mais uma intervenção do FMI, derrocada de
bancos, diminuição e congelamento de rendimentos, depósitos bancários
ameaçados, desaparecimento de cofres disponíveis nas agências bancárias para
guardar todo o género de valores, a começar pelo ouro, como se estivéssemos no
tempo dos Faraós e não no das criptomoedas. Tivemos também um governo de
centro-direita irrepetível liderado por um político com características pouco
habituais entre estes nossos paralelos e meridianos, e uma grave crise no
sector da habitação e construção, com uma paragem quase total desta última e
uma queda vertiginosa dos preços da primeira.
De forma geral, o povo Português sabe
que os preços da habitação dispararam desde essa altura, variando o volume
especulativo conforme o interesse da zona para a nova, desejada e bem vinda
emigração de endinheirados de todo o mundo, que aqui se uniram para
amadurecerem os seus ócios. As finanças nacionais terão recuperado, os bancos
estarão robustecidos, o sistema estará pronto? Ou estaremos a caminho do
explodir de mais uma bolha especulativa?
Os dados oficiais pátrios
confirmam aparentemente isso mesmo: o aumento de preços em Portugal durante os
últimos 20 anos representa uma inflação acumulada estimada em cerca de 71% de
2000 a 2026, significando uma quase duplicação de valores médios dos bens de
consumo e que, em média, o que custava 60€ em 2000 passou a custar mais de 102€
em 2026. Simultaneamente o poder de compra real dos Portugueses diminuiu
consideravelmente, com os produtos e serviços a ficarem cerca de 70% mais caros
desde a nossa integração no espaço do Euro. O valor das casas, na realidade e
de acordo com dados recentes do Índice Confidencial Imobiliário, triplicou ao
longo dos últimos 20 anos, tendo este índice registado uma valorização nominal
total de 208%, e um crescimento anual de quase 6%. Se a isto contrapormos os
números do Banco de Portugal acerca da evolução dos salários Portugueses, a
situação pode ser tida por alarmante: se pouco antes da crise, em 2006, o
salário médio era de 970€, tinha passado para 1230€ em 2020, num crescimento
médio anual de 1,0% entre 2006 e 2020. A este cenário se junta o Conselho de
finanças públicas de Portugal que afirma que no nosso país a inflação chegou a
8,1% em 2022 - ano do começo da guerra na Ucrânia - desacelerando posteriormente para 5,3% em
2023 e 2,7% em 2024, resultando no entanto num agravamento “particularmente
evidente nos preços dos bens alimentares, cujos níveis de preços em 2024 eram
cerca de 30% superiores aos observados em 2021”. Todos sentimos este
não-aliviar da pressão e é uma realidade traduzida por estudos recentes da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que
afirma que ao dia em que vivemos um em cada 10 trabalhadores em Portugal vive
em situação de pobreza, ou seja 530 mil pessoas. Um mar de gente descontente
que graças ao sufrágio universal tem mais peso político (cinco vezes mais) do
que os 2% de Portugueses que são milionários.
Estes últimos, por sua vez, encararam certamente como uma feliz
oportunidade de negócio as previsões que instituições como a J.P. Morgan e a
Goldman Sachs fizeram em 2025, colocando o risco de uma recessão mundial em 60
a 80% de probabilidade de se concretizar (pouco depois reduzindo estes números
para cerca de 40%, sob suspeitas de o terem feito para acalmar o crescente
pânico, pois a instabilidade aumentou ainda mais em 2026, por vários factores). Estamos, pois, perante o risco eminente do
fim de um ciclo financeiro e político?
Poucas dúvidas subsistema este respeito, e os
elementos para isso necessários indicados pelo próprio FMI - supervisão e
regulamentação falhadas, tomadas de risco excessivo por parte das instituições
e condições de crédito demasiado lenientes - estão presentes, com os principais
analistas e economistas Ocidentais a serem unânimes na premissa de que existe
uma crise de dívida pública sistémica nas economias avançadas, próxima de
níveis histórica e perigosamente elevados (cerca de 110% do PIB). Junte-se a
isto um crescente cenário de conflito armado total numa realidade de
guerra (já) mundial travado entre a Rússia e os seus aliados contra o Mundo
Ocidental no palco ucraniano; a condução de uma política de diplomacia pela
força pelo baluarte da democracia utilizando todos os meios para conduzir
uma guerra económica contra inimigos e aliados; um agudizar de tensões
politico-económicas num mundo que se desejou global em termos culturais e
financeiros; e temos uma receita clássica para uma crise.
O Portugal exíguo de 2026,
sem moeda própria, sem tribunais que não sejam desautorizados por leis
Europeias e internacionais, sem meios para defender o seu território e os seus
interesses estratégicos, partilhará com certeza dos efeitos da tempestade que
se avizinha. Abriguemo-nos e foquemo-nos no que é essencial, portanto.
English version
The Inevitable Path to a Crisis
If we were to do that exercise falsely attributed to
Churchill – about the danger to democracy of speaking for more than five
minutes with an average voter – we would quickly realize that in Portugal we
believe, based on faith, that we will not have a crisis like the one that hit
us between 2008 and 2016 (roughly aligning these dates). In that dark hour we
had yet another IMF intervention, bank collapses, salary reductions and
freezes, threatened bank deposits, the disappearance of safe deposit boxes
available in bank branches to store all kinds of valuables, starting with gold,
as if we were in the time of the Pharaohs and not in the time of
cryptocurrencies. We also had an unrepeatable center-right government led by a
politician with unusual characteristics among these parallels and meridians of
ours, and a serious crisis in the housing and construction sector, with an
almost total paralysis of the latter and a vertiginous fall in the prices of
the former.
In general, the Portuguese people know that housing prices
have skyrocketed since then, with the speculative volume varying according to
the area's interest for the new, desired, and welcomed emigration of wealthy
people from all over the world, who have come together here to mature their
leisure time. Will national finances have recovered, will the banks be
strengthened, will the system be ready? Or are we on the way to the bursting of
yet another speculative bubble?
Official national data apparently confirms this: the
increase in prices in Portugal over the last 20 years represents an estimated
accumulated inflation of around 71% from 2000 to 2026, meaning an almost
doubling of the average values of consumer goods, and that, on average, what
costed €60 in 2000 costs more than €102 in 2026. Simultaneously, the real
purchasing power of the Portuguese has decreased considerably, with products
and services becoming about 70% more expensive since our integration into the
Eurozone. In reality, and according to recent data from the Confidential Real
Estate Index, house values have tripled in the last 20 years, with this index
registering a total nominal appreciation of 208%, and an annual growth of
almost 6%. If we compare this with the Bank of Portugal's figures on the evolution
of Portuguese wages, the situation can be considered alarming: while shortly
before the crisis, in 2006, the average wage was €970, it had risen to €1230 in
2020, representing an average annual growth of 1.0% between 2006 and 2020.
Adding to this scenario is the Portuguese Public Finance Council, which states
that inflation in our country reached 8.1% in 2022 – the year the war in
Ukraine began – subsequently slowing to 5.3% in 2023 and 2.7% in 2024,
resulting, however, in a particularly evident worsening in food prices, whose
price levels in 2024 were approximately 30% higher than those observed in 2021.
We all feel this unabated pressure, and it's a reality reflected in recent
studies by the Francisco Manuel dos Santos Foundation, which states that at
this point in time, one in ten workers in Portugal lives in poverty, that is,
530,000 people. A sea of discontented people who, thanks to universal
suffrage, have more political weight (five times more) than the 2% of
Portuguese who are millionaires. The latter, in turn, certainly saw as a
fortunate business opportunity the predictions that institutions like J.P.
Morgan and Goldman Sachs made in 2025, placing the risk of a global recession
at a 60 to 80% probability of materializing (shortly afterwards reducing these
numbers to around 40%, under suspicion of having done so to calm the growing
panic, as instability increased even further in 2026, due to various factors).
Are we, therefore, facing the imminent risk of the end of a financial and political
cycle?
There is little doubt about the validity of is thesis, and
the necessary elements indicated by the IMF itself – failed supervision and
regulation, excessive risk-taking by institutions, and overly lenient credit
conditions – are present, with leading Western analysts and economists
unanimously agreeing that there is a systemic public debt crisis in advanced
economies, close to historically high and dangerously high levels (around 110%
of GDP). Add to this a growing scenario of total armed conflict in a reality of
(already) global war being waged between Russia and its allies against the
Western World on the Ukrainian stage; the conduct of a policy of diplomacy by
force by the bastion of democracy, using all means to wage an economic war
against enemies and allies; an intensification of political and economic
tensions in a world that has aspired to be global in cultural and financial
terms; and we have a classic recipe for a crisis.
The fragile Portugal of 2026, without its own currency,
without courts that are not overruled by European and international laws,
without the means to defend its territory and its strategic interests, will
surely share in the effects of the approaching storm. Let us therefore take
shelter and focus on what is essential.
Yann Loïc Araújo
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