Chassez le naturel, il revient au galop                                             de 7 de Abril de 2026

 

 

Os dias que vivemos na nossa velha Europa e nas suas antigas colónias lembram o famoso adágio da peça apresentada em 1732 por Philippe Nericault-Détouches, Le Glorieux: “chassez le naturel, il revient au galop”. Ou seja, numa possível tradução que trai no entanto a beleza e simplicidade harmónica da frase original, quando nos afastamos do que nos é natural, a realidade impõe-se-nos com grande velocidade.

          Foi o que ressenti, quando há dias lia sobre o reforçar no Ocidente da manosfera, termo que designa um domínio masculino tóxico sobre tudo, e particularmente o feminino. Uma corrente Red Pill, cinematográfica e ligado ao Matrix portanto, em que os homens teriam acordado para uma opressão da sua masculinidade pelas mulheres, eram agora essencialmente misóginos e contra o ginocentrismo, claramente estabelecidos contra uma lógica de igualdade de oportunidades ou quotas por sexos. A mais recente tendência apontada e referenciada está nos namoros abusivos, em que os rapazes tratam miseravelmente as raparigas, que se lhes submetem, aceitando violações várias, desde logo a sua liberdade de movimentos, contactos e expressão.

          Ressinto a mesmo admiração, incredibilidade e sentimento quase instintivo de recusa e repulsam quando entram no meu espaço mental e físico a ideologia woke e a sua corte de agressões, macro e mini, na proteção de injustiças sociais, raciais e de género numa cruzada do lado certo das ideias e das práticas contra os bárbaros, incréus e infiéis que resistem à boa nova. As suas armas, do cancelamento à difamação, passando pelo bom e velho saneamento profissional e social, sao perigosas e de estilo boomerang, retornando por norma ao remetente com a mesma fúria com que foram lançadas.

Vivemos no Ocidente uma realidade que se quer a melhor, a correcta, a que mais respeita a humanidade e se reclama como o mais avançado estádio de evolução. Paradoxalmente, a diversity, equity, and inclusion (DEI) é extremamente intolerante e rompe com este natural evoluir, atacando desde logo os teoremas de Darwin, a meritocracia, a tradição e o conservadorismo. Defendem-se as minorias, esquecendo-se o caminho do povo Judeu e a criaçao do Estado de Israel, de resto imunes a qualquer crítica sob pena de apedrejamento público, como se observou no caso do Abbée Pierre. Ataca-se como homofóbico quem nao é favor dos direitos do clã  lgbtq+, esquecendo-se a tolerancia no passado por nomes que vão de Alexandre o Grande a Oscar Wilde, passando mais recentemente pelos nossos Manuel Teixeira Gomes e Mário Viegas. Reclama-se por mais crianças e mais vida, enquanto se pratica um culto de morte, centrado na glorificação do Eu, na esterilidade, e na capacidade de se determinar o momento e os moldes do próprio fim. Cultivamos uma arte cada vez mais destinada a castas, convivendo a mais boçal vulgaridade com criações que dependem mais da especulação financeira do que do real valor artístico - da capacidade de influenciar o Mundo em que se inserem e de onde nasceram.

Determinamos que o nosso modelo de democracia capitalista e tecnocrata tem de - sob ameaça de todo o tipo de violências - ser adoptado pelo mundo que desejamos neo-colonizar. E, neste movimento, esquecemo-nos que as vítimas de opressão que hoje buscamos salvar sao na verdade persas, fenícios, mesopotâmicos, cartagineses, eslavos, maias e aztecas, que há milénios já filosofavam e legislavam enquanto os Ocidentais hoje reinantes praticavam o canibalismo.

Pode-se considerar a sucessão destes fenómenos como momentos contraditórios, que se auto-anulam, e que eventualmente estão ao serviço de uma agenda destruidora que busca por estes meios melhor reinar - mas este nao é o momento nem o local para conspiraçoes.

O facto é que le naturel tende a vir acima, que apenas os melhores sobrevivem e se propagam, e que leis e códigos procedem de uma base consuetudinária, emanam dos costumes, da prática, dos hábitos dos povos que regulam. Vão ao seu encontro e não no seu combate, torcendo a vontade da maioria aos desejos e programas de poucos com desmesurada influência.

Pretender no entanto que sabemos hoje mais do que Platão, Descartes e Maquiavel, Nietzsche, Tolstoi e Hobbes, ou mesmo de Herculano e Teixeira de Pascoaes, implica o seu conhecimento profundo, a consciência do grão de poeira que somos no cosmos e o respeito por quem antes de nós viveu, pensou e criou.

Daí que le naturel revienne au galop: on chasse le naturel.        

 

 

 

 

English

 

 

Chassez le naturel, il revient au galop,                                           April 7, 2026

 

The days we are living in our old Europe and its former colonies are reminiscent of the famous adage from the play presented in 1732 by Philippe Nericault-Détouches, Le Glorieux: “chassez le naturel, il revient au galop”. That is, in a possible translation that nevertheless betrays the beauty and harmonious simplicity of the original phrase, when we move away from what is natural to us, reality imposes itself on us with great speed.

 

This is what I felt when, a few days ago, I read about the reinforcement in the West of the manosphere, a term that designates a toxic masculine dominance over everything, and particularly the feminine. A Red Pill current, cinematic and therefore linked to the Matrix, in which men would have awakened to an oppression of their masculinity by women, were now essentially misogynistic and against gynocentrism, clearly set against a logic of equal opportunities or quotas by sex. The most recent trend pointed out and referenced is in abusive dating, in which boys treat girls miserably, who submit to them, accepting various violations, starting with their freedom of movement, contact, and expression.

 

I feel the same admiration, disbelief, and almost instinctive feeling of rejection and repulsion when the woke ideology and its court of aggressions, macro and mini, enter my mental and physical space, protecting social, racial, and gender injustices in a crusade on the right side of ideas and practices against the barbarians, unbelievers, and infidels who resist the good news. Their weapons, from cancellation to defamation, passing through the good old professional and social cleansing, are dangerous and boomerang-like, generally returning to the sender with the same fury with which they were launched.

In the West, we live in a reality that strives to be the best, the correct one, the one that most respects humanity, and claims to represent the most advanced stage of evolution. Paradoxically, diversity, equity, and inclusion (DEI) is extremely intolerant and breaks with this natural evolution, attacking Darwin's theorems, meritocracy, tradition, and conservatism from the outset. Minorities are defended, forgetting the path of the Jewish people and the creation of the State of Israel, which, moreover, are immune to any criticism under penalty of public stoning, as was observed in the case of Abbé Pierre. Those who do not support the rights of the LGBTQ+ community are attacked as homophobic, forgetting the tolerance shown in the past for figures ranging from Alexander the Great to Oscar Wilde, and more recently, our own Manuel Teixeira Gomes and Mário Viegas. There are calls for more children and more life, while a cult of death is practiced, centered on the glorification of the Self, on sterility, and on the ability to determine the timing and form of one's own end. We cultivate an art increasingly destined for castes, coexisting with the most boorish vulgarity alongside creations that depend more on financial speculation than on real artistic value - on the ability to influence the world in which they are embedded and from which they were born.

We determine that our model of capitalist and technocratic democracy must - under threat of all kinds of violence - be adopted by the world we wish to neocolonize. And, in this movement, we forget that the victims of oppression we seek to save today are actually Persians, Phoenicians, Mesopotamians, Carthaginians, Slavs, Mayans, and Aztecs, who millennia ago were already philosophizing and legislating while the Westerners reigning today practiced cannibalism.

One can consider the succession of these phenomena as contradictory moments that cancel each other out, and that eventually serve a destructive agenda that seeks to reign better through these means - but this is neither the time nor the place for conspiracies.

 

The fact is that nature tends to prevail, that only the best survive and propagate, and that laws and codes proceed from a customary basis, emanating from the customs, practices, and habits of the peoples they regulate. They meet them and do not fight them, twisting the will of the majority to the desires and programs of a few with disproportionate influence.

 

To claim that we know more today than Plato, Descartes and Machiavelli, Nietzsche , Tolstoy and Hobbes, or even Herculano and Teixeira de Pascoaes, implies profound knowledge of them, awareness of the grain of dust that we are in the cosmos, and respect for those who lived, thought, and created before us.

 

Hence le naturel reviens au galop: on chasse le naturel.

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