Portugal vai arder outra vez este Verão? Claro que sim. 24 de Março 2026
Trata-se de
uma questão que me é particularmente cara, filho que sou de um investigador do
saudoso INETI (criminosamente extinto pela gestão Socrática) especializado em
energia e biomassa, com uma tese de doutoramento elaborada há quarenta anos
sobre o maximizar do aproveitamento energético de produtos florestais. À
admiração da infatigável figura paterna e da sua obra a bem do país, dos seus
recursos energéticos e da qualidade do ambiente e ordenamento, soma-se o
interesse que o tema sempre me despertou enquanto antigo proprietário agrícola
e silvícola, tanto em Portugal como em França.
Sintomático será que, na minha
própria tese de doutoramento (prestes a ser defendida) que dedico à figura do
antigo ministro e depois administrador bancário Rafael Duque, me tenha demorado
sobre o seu plano de povoamento florestal de 1938, projetado e executado até
para além dos seus objetivos iniciais, para um período de 30 anos.
Tratava-se de um plano de grande
fôlego, que dava continuidade a estratégias desenhadas
e não concretizadas então nos últimos 100 anos, incluindo na Iª República. Para
além de se desenvolver o esforço do “revestimento florestal” das zonas dunares
(da Figueira da Foz a Viana do Castelo) num total de 14.500 hectares e o
povoamento florestal dos “terrenos baldios a norte do Tejo com uma superfície a
arborizar de 420.000 hectares”, far-se-ia “a instalação de reservas de
vegetação em 33.000 hectares e a instalação de pastagens em 60.000 hectares”. Um
plano integrado numa estratégia de modernização económica e social, que
abrangia as mais recentes técnicas e produtos agro-pecuários (incluindo a
introdução do eucalipto para a pasta de papel e o reforço do pinheiro bravo
para a indústria resineira) o tipo de propriedade (colonização de baldios em
todo o país, emparcelamento dos mini-fúndios a Norte e parcelamento por
expropriação dos latifúndios não explorados a Sul) a geração de novos proprietários
e a criação de emprego, aliando-se esta movida a um projeto de
eletrificação e de obras hidráulicas aplicado a todo o Portugal, continental e
ultramarino. Um plano económico, social e agrícola-industrial.
Em
termos florestais não existiam incêndios em 1936 e seria essa a realidade até
1977. Muito graças ao plano florestal de Rafael Duque de 1938 que, além de
estar ancorado sobre o trabalho de técnicos de grande qualidade que desenharam
a floresta nacional com critérios de sustentabilidade ecológica, resistência às
agressões e rentabilidade das propriedades, criou uma infraestrutura de que ainda
colhemos frutos, apesar do abandono: “2455 km de caminhos, 26 casas de
administração, 1000 casas de guarda, 140 postos de vigia, 1159 telefones e 5800
km de rede telefónica”. Recordemos, até 1974 não há registo de incêndios florestais em áreas
superiores a 5000 hectares. Não se trata de saudosismo, branqueamento ou de
normalização de qualquer opção política. São apenas de factos.
A realidade a que hoje parecemos condenados é a de que, num
país ocupado por 3.3 milhões de hectares de floresta, tenham ardido entre 2010
e 2025 quase 2 milhões de hectares. Um desastre que nos angustia e que tem
enormes repercussões a nível ecológico, económico e social. As causas todos as
conhecemos bem: o trabalho agrícola e silvícola representa hoje apenas 1.6% do
PIB nacional e tem um retorno inferior a 7% do investimento feito, uma tendência
semelhante à da maioria dos países do Ocidente Norte Atlântico, refletindo o
abandono dos campos e das florestas por parte da força de trabalho e dos próprios
proprietários para se fixarem em meio urbano; a rentabilidade do trabalho
agrícola é absolutamente dependente das oscilações do mercado e do PEPAC (Plano
Estratégico da Política Agrícola Comum) constituído uma actividade de maior
risco do que a gestão de fundos financeiros voláteis, ao exigir elevados
capitais de arranque e manutenção, e depender de variáveis climáticas e de
mercados externos, sendo muitos riscos agrícolas não "seguráveis" ou
transferíveis, apresentando prêmios de seguro proibitivos – a actividade é agrícola
e silvícola não é, de todo, apelativa.
Poderemos juntar a esta breve análise o fenómeno da corrupção
endémica no Portugal da Democracia, associado ao magnetismo do montante das
verbas alocadas ao combate de incêndios em Portugal - 529 milhões de euros
(financiamento nacional e europeu) em 2022, e sempre a crescer. Trata-se, claramente,
de um negócio altamente rentável e que urge continuar a alimentar.
As soluções para quebrar o ciclo do fogo – fenómeno conhecido
de todos, que a cada 7-10 anos implica a destruição de parte do nosso país,
deixado a mato – são também elas conhecidas. E complexas, porque implicam
uma reversão de décadas de políticas de emprego, habitação, saúde, fisco, indústria
e serviços… No fundo, trata-se de reverter o desinvestimento grosseiro a que tem
sido sistematicamente votado uma parte maioritária do país a que se ousou
designar de interior, como se Madrid não estivesse mais a Este de Lisboa
do que as capitais dos distritos de Portugal.
Retomando ensinamentos antigos, como os de Rafael Duque em
1938, o plano Floresta 2050 (com uma dotação anunciada de 6500 milhões
de euros) enumera uma série de pontos essenciais para o reconhecimento dos
terrenos florestais (e, por associação, agrícolas) como bem comum de utilidade
pública, com responsabilidade social do Estado e dos proprietários adequada a
este estatuto. Evidencia-se neste plano o essencial: “400 mil proprietários [detêm]
cerca de 11,7 milhões de prédios rústicos [e] cerca de 30% [destes] prédios
rústicos estão em heranças indivisas”, o que torna a propriedade rural
ingerível, dispendiosa, não-rentável e, mais grave ainda, criminosamente um
perigo sempre presente para as populações, como o ano de 2017 demonstrou à
saciedade.
Fica assim a apelo a um pacto de regime e ao cumprimento de
uma estratégia a médio-longo prazo com vista a uma urgente reorganização da
propriedade rural que, como todos sabemos, terá impacto imediato nos demais
sectores da sociedade, sobrecarregados que estão à beira-mar, distribuídos por
um punhado de centros urbanos. A alternativa é o País continuar a arder, e argumento
da “forte ligação emocional e cultural” à terra – decisiva na hora de angariar votos
em democracia, bem o sabemos – não se pode sobrepor ao interesse público, da
salvaguarda de teres, haveres e até vidas, da rentabilidade e sustentabilidade
dos terrenos, do impacto ambiental, social e económico que uma gestão ordenada e
competente garantirão.
English version
Will
Portugal burn again this summer? Of course it will. March 24, 2026
This is a
matter that is particularly dear to me, as I am the son of a researcher from
the late INETI (criminally extinguished by the Sócrates PM administration) who
specialized in energy and biomass, with a doctoral thesis written forty years
ago on maximizing the energy use of forest products. To my admiration for my
tireless father and his work for the good of the country, its energy resources,
and the quality of the environment and planning, is added the interest that the
topic has always aroused in me as a former agricultural and forestry landowner,
both in Portugal and in France.
It is
telling that, in my own doctoral thesis (soon to be defended), which I dedicate
to the figure of the former minister and later bank administrator Rafael Duque,
I have lingered on his 1938 forest settlement plan, designed and executed even
beyond its initial objectives, for a period of 30 years. This was a
far-reaching plan that continued strategies designed but not implemented in the
previous 100 years, including during the First Republic. In addition to
developing the "forest cover" of dune areas (from Figueira da Foz to
Viana do Castelo) totaling 14,500 hectares and the reforestation of
"barren lands north of the Tagus River with a forested area of 420,000
hectares," the plan included "the establishment of vegetation
reserves in 33,000 hectares and the establishment of pastures in 60,000
hectares." An integrated plan within a strategy of economic and social
modernization, encompassing the latest agricultural and livestock techniques
and products (including the introduction of eucalyptus for paper pulp and the
reinforcement of maritime pine for the resin industry), the type of land
ownership (colonization of common lands throughout the country, consolidation
of smallholdings in the North and subdivision by expropriation of unexploited
large estates in the South), the generation of new landowners and job creation,
driven by an electrification and hydraulic works project applied throughout
Portugal, both mainland and overseas. An economic, social and
agricultural-industrial plan.
In terms of
forestry, there were no fires in 1936, and this would remain the reality until
1977. This was largely thanks to Rafael Duque's 1938 forestry plan, which, in
addition to being based on the work of highly qualified technicians who
designed the national forest with criteria of ecological sustainability,
resistance to aggression, and profitability of properties, created an
infrastructure from which we still reap the benefits, despite its neglect:
“2455 km of roads, 26 administration buildings, 1000 guardhouses, 140 lookout
posts, 1159 telephones and 5800 km of telephone network”. Let us remember that
until 1974 there is no record of forest fires in areas larger than 5000
hectares. This is not about nostalgia, whitewashing, or normalizing any political
option. These are simply facts.
The reality
to which we seem condemned today is that, in a country with 3.3 million
hectares of forest, almost 2 million hectares will have burned between 2010 and
2025. A disaster that distresses us and has enormous ecological, economic and
social repercussions. We all know the causes well: agricultural and forestry
work today represents only 1.6% of the national GDP and has a return of less
than 7% of the investment made, a trend similar to that of most countries in
the North Atlantic, reflecting the abandonment of fields and forests by the
workforce and the owners themselves to settle in urban areas; The profitability
of agricultural work is absolutely dependent on market fluctuations and the
PEPAC (Strategic Plan of the Common Agricultural Policy), constituting a
riskier activity than the management of volatile financial funds, as it
requires high initial and maintenance capital, and depends on climatic
variables and external markets, with many agricultural risks not being
"insurable" or transferable, presenting prohibitive insurance
premiums – the activity is agricultural and forestry and is not at all
appealing.
We could add
to this brief analysis the phenomenon of endemic corruption in democratic
Portugal, associated with the magnetism of the amount of funds allocated to
fighting fires in Portugal - 529 million euros (national and European funding)
in 2022, and always growing. This is clearly a highly profitable business that has
to be fueled.
The
solutions to break the fire cycle – a phenomenon known to all, which every 7-10
years implies the destruction of part of our country, left to scrubland – are
also known. And complex, because they imply a reversal of decades of policies
on employment, housing, health, taxation, industry and services… In essence, it
is about reversing the gross disinvestment to which a majority of the country,
which has been called the “interior”, has been systematically subjected, as if
Madrid were not further east of Lisbon than the capitals of the districts of
Portugal.
Revisiting
old teachings, such as those of Rafael Duque in 1938, the Forest 2050 plan
(with an announced allocation of 6500 million euros) lists a series of
essential points for the recognition of forest land (and, by association,
agricultural land) as a common good of public utility, with social
responsibility of the State and owners appropriate to this status. This plan
highlights the essential point: "400,000 owners [hold] approximately 11.7
million rural properties [and] about 30% [of these] rural properties are
undivided inheritances," which makes rural property unmanageable,
expensive, unprofitable and, even more seriously, a criminally ever-present
danger to the population, as the year 2017 amply demonstrated.
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