A utilidade do Chega para o regime
A utilidade
do Chega. de 12.2.2026
Passado mais
um ciclo eleitoral, a utilidade do Chega para os principais partidos e forças políticas
ficou mais uma vez demonstrada. Não só pelo despertar de quase 50% do
eleitorado Portugues que, por não se rever no tipo de regime, na democracia ou
nos partidos, pura e simplesmente não vota, eleição após eleição, não sendo
esta abstenção alvo do maior cuidado pela nossa governança. Ou pela introdução
de um tom mais próximo da rua e do eleitor comum no debate e na apresentação de
temas que representam as reais inquietações dos cidadãos, ou assim se
apresentam. Ou ainda pela definitiva adopção pelos partidos dos meios actuais
de comunicação dos povos democráticos - as dinâmicas redes sociais, com todas
as suas vantagens de imediatismo e cenografia, e complicações relacionadas com
transparência, controlo e qualidade da informação aí veiculada. Todos estes
seriam bons argumentos para a utilidade do Chega no sistema político nacional.
Há outro, porém, que é de ser o idiota útil, o useful idiot, termo cujo
nascimento é lendáriamente atribuído a Lenin.
Alguns pontos podem ser elencados para suportar esta tese.
Desde
logo, é interessante verificar que, já com meia dúzia de anos de existência e
sendo um spin off do psd liderado por um hábil comunicador, o Chega não
teve até à data uma resposta ao seu estilo truculento e provocador, mas de uma
enorme fragilidade programática. Com
ocasionais exceções, como foi o caso da aparição na vida pública
extra-conimbricense do deputado Gonçalo Capitão, raramente ou nunca se ouviu
uma resposta calma, elegante e desconstrutora do arrazoado que o Chega exibe no
Parlamento e nos media, o seu verdadeiro palco. Não faltando boas inteligências
na maioria dos partidos presentes na vida pública, com destaque para o
bipartidarismo histórico, a razão mais plausível para esta realidade
encontra-se na utilidade de ter um inimigo de fácil e eficaz choque e embaraço,
conseguindo ainda ganhar pontos na utilização de alguns óbvios argumentos do
Chega, desta feita já não vociferados, mas lançado sob as diáfanas vestes da
moderação.
Outra
questão prende-se com a ausência de ataques anónimos, fugas de informação ou
investigações oficiais cirurgicamente anunciadas, contra a cúpula do Chega.
Fazemos parte de um povo que julga há mais de dez anos um antigo Primeiro
Ministro e uma boa parte do sistema financeiro, atacou recentemente a
honestidade do actual Primeiro Ministro e levou à demissão o anterior. A lista
é longa, quase interminável, no que respeita à falta de confiança dos
Portugueses sobre quem os representa e dirige, como demonstrou recentemente
o Índice de Perceção da Corrupção (IPC)
2024. Também estas eleições foram pródigas no fenómeno de escárnio e mal
dizer pátrio, com ataques mortais desferidos à candidatura de Luis Marques
Mendes e Cotrim de Figueiredo, e mais uma vez o Chega passou incólume, com a
ocasional e pouco determinante revelação de mais um pequeno escândalo local.
Sabia-se que André Ventura iria perder as eleições, havia que fazer com que
passasse à segunda volta, demolindo a verdadeira oposição, sobretudo a partir
do momento em que a candidatura do Sr. Almirante auto-implodiu por demérito do
candidato no momento em que falou, ajudado no entanto e entretanto com uma
pequena smear campaign sobre aquisições diretas na Marinha - havia que
selar o assunto eficazmente.
Desapareceram
entretanto da vida pública e informativa a gorda contabilidade e o lobby
de Marques Mendes, os assédios predatórios de Cotrim de Figueiredo evaporaram,
o idiota útil cumpriu o seu papel e foi eleita uma peça-chave do regime. E
porque Portugal é bafejado pela providência veio de seguida um dilúvio
salvífico, que expiou todas as penas eleitorais e concentrou todo o foco na
contenção de águas e derrocadas.
Em
resultado desta sequência de acontecimentos verificáveis e públicos, penso
deveríamos estar, enquanto Portugueses, preocupados com quem orquestra estas
campanhas e o que estamos a perder e a ganhar com isso. Até porque, claramente,
não votámos para isso.
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EN version
The Usefulness of Chega. February 12, 2026
After another election cycle, Chega's usefulness to the main parties and political forces has once again been demonstrated. This is not only due to the awakening of almost 50% of the Portuguese electorate who, not identifying with the type of regime, democracy, or parties, simply do not vote, election after election, and this abstention is not given much attention by our governance. Or due to the introduction of a tone closer to the street, the common voter in the debate and in the presentation of themes that represent the real concerns of citizens, or so they appear. Or even due to the definitive adoption by the parties of the current means of communication of democratic peoples – the dynamic social networks, with all their advantages of immediacy and scenography, and issues related to the transparency, control, and quality of the information present. All these would be good arguments for Chega's usefulness in the national political system. There is another, however, which is that of being the useful idiot, a term whose origin is legendarily attributed to Lenin. Several points can be listed to support this thesis.
First of all, it's interesting to see that, despite its half-dozen years of existence and being a spin-off of the PSD led by a skilled communicator, Chega has not yet had a response to its truculent and provocative style, nor to its enormous programmatic fragility. With occasional exceptions, such as the appearance in public life outside Coimbra of deputy Gonçalo Capitão, rarely, if ever, has there been a calm, elegant, and deconstructive response to the arguments that Chega displays in Parliament and in the media, its true stage. While there is no shortage of sharp minds in most parties present in public life, especially given the historical two-party system, the most plausible reason for this reality lies in the usefulness of having an enemy that is easy and effective at shocking and embarrassing, while also gaining points by using some of Chega's obvious arguments, this time no longer shouted, but presented under the diaphanous guise of moderation.
Another issue concerns the absence of anonymous attacks, leaks, or surgically announced official investigations against the Chega leadership. We are part of a country who has been judging a former Prime Minister and a large part of the financial system for over ten years, recently attacked the honesty of the current Prime Minister and led to the resignation of the previous one. The list is long, almost endless, regarding the lack of trust the Portuguese people have in those who represent and lead them, as recently demonstrated by the 2024 Corruption Perceptions Index (CPI). These elections were rife with patriotic scorn and slander, with deadly attacks launched against the candidacies of Luis Marques Mendes and Cotrim de Figueiredo, and once again Chega emerged unscathed, with the occasional and inconclusive revelation of yet another small local scandal. It was known that André Ventura would lose the elections; it was necessary to get him into the second round by demolishing the real opposition, especially after the Admiral's candidacy self-destructed due to the candidate's own shortcomings during his speech, aided, however, by a small smear campaign regarding direct acquisitions in the Navy – it was necessary to effectively seal the deal.
Meanwhile, the lucrative accounting and lobbying of Marques Mendes disappeared from public life and the media, the predatory harassment of Cotrim de Figueiredo evaporated, the useful idiot fulfilled his role and a key figure in the regime was elected. And because Portugal is blessed by providence, a salvific deluge followed, which expiated all electoral sins and focused all attention on containing the waters and preventing landslides.
As a result of this sequence of verifiable and public events, I think we, as Portuguese citizens, should be concerned about who is orchestrating these campaigns and what we are losing and gaining from them. Especially since, clearly, we didn't vote for this.
Yann Loïc Araújo
Lúcido, pragmático e fundamentado. Boa análise. Não sei se será sempre intencional a forma como os outros partidos fazem o que fazem, por vezes acho que falta profundidade na linha de orientação/ação. Parabéns, Amigo.
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